O MEQA – Metafísica, Quântica e Abstração reúne pesquisas em metafísica e fundamentos da mecânica quântica. Promovido pelo NEL/UFSC e pelo grupo de pesquisa “Lógica e Fundamentos da Ciência” (CNPq), o workshop busca fomentar o diálogo entre filosofia geral da ciência, a metafísica analítica e a filosofia das ciências físicas.
I MEQA (2026)

Organização: Raoni Arroyo, Caio Silvano e Mariana Pase
Programação
| Horário | 17/06/2026 Auditório do CFH | 18/06/2026 Auditório do CFH | 19/06/2026 Auditório do CFH |
| 14:30–15:00 | Raoni Arroyo & Jonas Arenhart Mal-entendimento metafísico | Mariana Pase A noção de mundo para Everett e DeWitt: implicações metafísicas | Denilson Xavier Décio Krause sobre Identidade, individualidade e não-individualidade em física quântica |
| 15:05–15:35 | Anderson Bernardi Três ontologias em disputa: Einstein, Bohr e Heisenberg | Martín Barra A Metafísica da Ciência é Metafísica Suficiente? (Se É que Precisamos de Metafísica) | Paola Villa Dois vocabulários, um diagnóstico: subdeterminação metafísica, fenomenologia e naturalismo |
| 15:35–16:05 | Intervalo | Intervalo | Intervalo |
| 16:05–16:35 | Caio Silvano Breve Resumo de “Synchronic and diachronic identity for elementary particles”, de Tomasz Bigaj | Robert Lima Paralelos entre o Idealismo Transcendental e a Interpretação de Bohr da Mecânica Quântica | Lincoln Ramos TBA |
| 16:40–17:10 | Júlio Barczyszyn Elementos de lógica quântica | Emily Ovalhe (UFBA) Realismo estrutural e mecânica quântica | Vicente Meneguzzo A dissolução do ego e o problema da medição: paralelos entre a experiência psicodélica e a mecânica quântica |
Títulos e Resumos
Raoni Arroyo & Jonas Arenhart – Mal-entendimento metafísico.
Tomando como exemplo os debates recentes na metafísica da individualidade dos objetos quânticos, argumentaremos contra a concepção segundo a qual a camada explicativa da metafísica é imprescindível para o realismo científico.
Anderson Bernardi – Três ontologias em disputa: Einstein, Bohr e Heisenberg.
Visa-se apresentar as diferentes ontologias associadas à mecânica quântica a partir das interpretações de Albert Einstein, Niels Bohr e Werner Heisenberg. Argumenta-se que Einstein sustenta um “realismo de atualidades”, segundo o qual propriedades físicas existiriam de forma definida independentemente da observação; o que o leva a interpretar a teoria quântica como incompleta. Em contraste, Bohr desloca a questão sobre “o que existe?” para “em que condições um enunciado sobre o que existe pode ser objetivamente significativo?”, sendo interpretado como um “realista contextual”, pois a atribuição de propriedades dependeria do contexto fenomenológico (objeto + aparato). Já Heisenberg é compreendido como um “realista de potencialidades”, na medida em que admite uma realidade física objetiva anterior à medição, mas não composta por valores definidos, e sim por potencialidades reais, “ontologizando” a indeterminação.
Caio Silvano – Breve Resumo de “Synchronic and diachronic identity for elementary particles”, de Tomasz Bigaj
Em seu artigo de 2020, Tomasz Bigaj tenta, através de experimentos de espalhamento de partículas, comparar o modo como duas abordagens interpretam os fenômenos quânticos que dali se obtêm. Essas abordagens diferem quanto à forma de se encarar a questão da individualidade das entidades da mecânica quântica. Os fenômenos estudados são o da identidade sincrônica e da identidade diacrônica (transtemporal) de tais entidades. Bigaj também procura estabelecer uma conexão entre os fenômenos de interferência entre partículas e a presença ou não de identidade diacrônica. A questão acerca da identidade sincrônica toma forma no contexto em que há muitas partículas do mesmo tipo e se analisa seus estados instantâneos. Dado que há certas propriedades de simetria (a depender do tipo de partícula, seus estados devem ser simétricos ou antissimétricos), podemos nos perguntar se há garantia de que um certo subconjunto delas seja numericamente distinto, ou seja, se as partículas possuem individualidade de maneira sincrônica (em apenas um momento no tempo, como em uma espécie de fotografia instantânea). Essa situação é contrastada com a perspectiva diacrônica, na qual a comparação é feita entre estados e propriedades de certos objetos em diferentes instantes temporais (questionamos se um objeto descrito em um tempo t1 é a mesma entidade descrita em um momento posterior t2). Como ferramentas para analisar esses casos, o autor distingue de maneira breve as duas abordagens acerca da individualidade quântica, uma por ele denominada de “ortodoxa” e outra de “heterodoxa” (pela qual ele parece demonstrar certa preferência, ou pelo menos acredita ser mais interessante, por motivos que veremos à frente). Na abordagem ortodoxa, partículas do mesmo tipo (aquelas que possuem as mesmas propriedades independentes de estado), que formam um estado descrito por uma função simétrica ou antissimétrica, nunca podem diferir quanto a suas propriedades quânticas. Isso deve-se à invariância quanto à permutação do estado conjunto que elas compõem. Segue-se daí que a representação do estado é idêntica independente da partícula que se escolha, o que significaria que entidades quânticas desrespeitam o Princípio da Identidade dos Indiscerníveis. Já a abordagem rival, a heterodoxa, questiona a Tese da Indiscernibilidade, que é a afirmação de que partículas de mesmo tipo nunca são discerníveis por suas propriedades. A individuação deve ser feita formalmente através de projetores simétricos que representam propriedades disjuntivas do tipo “a partícula 1 tem a propriedade P enquanto a partícula 2 tem a propriedade Q; ou a partícula 1 tem a propriedade Q enquanto a partícula 2 tem a propriedade P”. Desse modo, grupos de férmions “idênticos”, em certos contextos, podem ser tratados como se momentaneamente ocupassem estados separáveis. Assim, rótulos como ‘partícula 1’ perdem o papel referencial e ficamos aptos a afirmar que uma partícula possui spin ‘para cima’ em dada direção e que outra possui spin ‘para baixo’ na mesma direção, mas não que a partícula 1 possui spin ‘para cima’ ou que a partícula 2 possui spin ‘para baixo’. A definição da ‘heterodoxia’ é comentada brevemente, mas seus efeitos tornam-se mais claros ao analisarmos os exemplos dados no decorrer do artigo. Bigaj analisa três casos de interação e subsequente espalhamento de partículas: (i) o caso de duas partículas distinguíveis (um próton e um pósitron), (ii) o caso de duas partículas indistinguíveis (dois prótons) e (iii) o caso de duas partículas indistinguíveis com propriedades que as diferenciam (nesse caso, o spin). Sem entrar nos detalhes técnicos, que serão abordados na apresentação no I MEQA, conclui-se que em (i) não há dificuldades no tratamento da identidade diacrônica, pois as propriedades independentes de estado permitem correlacionar sem ambiguidade cada partícula pós-interação com uma das partículas no estado inicial. Já em (ii), tanto a interpretação ortodoxa quanto a heterodoxa falham em identificar as partículas iniciais com aquelas depois da interação, apesar de utilizarem argumentos diferentes para alcançar essa conclusão. Finalmente, em (iii), a interpretação ortodoxa continua incapaz de estabelecer a identidade diacrônica das partículas. Já a interpretação heterodoxa translada o problema de uma questão ontológica para uma de natureza epistemológica, pois a identificação diacrônica depende da capacidade experimental de medir os spins das partículas que interagem. Isso parece consistente com a afirmação de que a ausência ou presença de efeitos de interferência é um critério decisivo para a existência ou não de identidade diacrônica relacionando as partículas antes e depois da interação. Por isso, o autor reafirma, há um aumento crescente na adoção da interpretação heterodoxa.
Referência: T. Bigaj, “Synchronic and diachronic identity for elementary particles,” European Journal for Philosophy of Science, vol. 10, no. 3, p. 33, Oct. 2020.
Júlio Barczyszyn – Elementos de lógica quântica
A fundação da Lógica Quântica ortodoxa remonta ao artigo seminal de 1936, “The Logic of Quantum Mechanics”, escrito por Garrett Birkhoff e John von Neumann. A motivação central deles não era dar origem a uma nova lógica para o cotidiano. Era, na verdade, encontrar uma estrutura matemática subjacente à estrutura das proposições experimentais sobre o mundo quântico. O ponto de partida foram os fatos de que, na Mecânica Clássica, o estado de um sistema habita um espaço de fase e de que as proposições experimentais formuladas nessa teoria codificam a Lógica Clássica através de uma estrutura de álgebra de Boole. A pergunta era, então: qual a lógica subjacente às proposições experimentais na Mecânica Quântica? Motivados por essa questão, Birkhoff e von Neumann propuseram que os eventos físicos, as proposições experimentais, correspondem a subespaços fechados (ou, equivalentemente, projetores) em um espaço de Hilbert, e não mais a simples subconjuntos de pontos em um espaço de fase clássico. Além disso, conectivos como disjunção, conjunção e negação passam a ser implementados como (fecho da) soma linear, intersecção e complemento ortogonal, respectivamente. Essa construção matemática gerou uma novidade formal: a quebra da distributividade. No novo objeto que incorpora a estrutura de proposições experimentais na Mecânica Quântica, chamado de reticulado ortomodular completo, a falha da lei distributiva não é um defeito; é o reflexo algébrico de que observáveis incompatíveis não podem ser medidos simultaneamente com precisão arbitrária. A Lógica Quântica ortodoxa (conhecida hoje como “sharp”, em contraste com outras abordagens ditas “unsharp”) enfrentou críticas severas. Alguns apontaram que ela sofre gravemente do “problema da implicação”, no qual o abandono da distributividade corrompe o significado intuitivo dos conectivos condicionais e das operações básicas. Além disso, a abordagem via espaços de Hilbert acarreta o chamado “desastre metafísico” (ou “colapso extensional”), caracterizado pela incapacidade de distinguir matematicamente o conceito intensional de uma propriedade física da extensão dos estados que a verificam. Além disso, o próprio von Neumann se distanciou dessa formulação inicial. Neste seminário, introduziremos com mais detalhes o que foi dito aqui, apresentando brevemente algumas ideias presentes no artigo original de Birkhoff e von Neumann. Com isso em mente, iremos mostrar como se obtém uma álgebra de Boole a partir da Mecânica Clássica e como, a partir de um processo similar, um reticulado ortomodular completo pode ser obtido no contexto quântico. Dessa forma, pretendemos que o seminário sirva como um primeiro contato para quem deseja pesquisar na área e como um passo na direção de futuras apresentações mais avançadas sobre o tema.
Mariana Pase – A noção de mundo para Everett e DeWitt: implicações metafísicas
A interpretação de Muitos Mundos, formulada por Hugh Everett em sua tese de doutorado (1956) e posteriormente popularizada por Bryce DeWitt, destaca-se entre as interpretações da mecânica quântica por rejeitar o colapso da função de onda. Entretanto, ao observar a história dessa proposta, fica claro uma diferença conceitual importante: embora a interpretação seja amplamente associada à existência de múltiplos mundos que se dividem, Everett não utilizou o termo “mundos” em nenhum seus trabalhos publicados, em vez disso, encontra-se as noções de estados relativos e ramificações. Segundo Barrett (2011), essa distinção viria a refletir compromissos metafísicos divergentes entre Everett e DeWitt. Enquanto DeWitt defendia a existência de múltiplos mundos fisicamente reais como explicação para os resultados de medição, Everett por outro lado entendia os ramos como igualmente reais e atuais, sem que a teoria privilegiasse qualquer um deles. As diferentes leituras da interpretação levantam questões acerca de seus custos metafísicos e de suas implicações. Desta forma, este trabalho buscará analisar comparativamente as concepções de Everett e DeWitt, identificando suas diferenças metafísicas e suas consequências para a compreensão da Interpretação de Muitos Mundos.
Martín Barra – A Metafísica da Ciência é Metafísica Suficiente? (Se É que Precisamos de Metafísica)
Um desafio recorrente para a metafísica da ciência é o problema da subdeterminação da metafísica. A ideia geral é que uma mesma teoria científica pode ser compatível com diferentes interpretações metafísicas, enquanto as evidências empíricas disponíveis permanecem insuficientes para decidir entre elas. Um exemplo paradigmático surge nas discussões sobre a identidade e a individualidade das partículas quânticas. Jonas Arenhart, Raoni Arroyo e Décio Krause argumentam que a própria estrutura formal da mecânica quântica é compatível com ontologias mutuamente incompatíveis: algumas concebem as partículas quânticas como indivíduos dotados de identidade, outras as tratam como não indivíduos desprovidos de identidade bem definida, enquanto outras deslocam o foco para relações e estruturas, dispensando objetos individuais como entidades fundamentais. A dificuldade é que todas essas propostas parecem igualmente adequadas para acomodar os resultados empíricos da teoria. Consequentemente, a ciência não parece fornecer critérios suficientes para determinar qual dessas metafísicas deve ser considerada a correta. Argumentarei, contudo, que essa situação não constitui uma ameaça séria ao estatuto epistêmico da metafísica da ciência. A principal razão é que a própria ciência é frequentemente subdeterminada. A coexistência de teorias empiricamente equivalentes, programas de pesquisa rivais e estruturas teóricas compatíveis com o mesmo conjunto de evidências é uma característica amplamente reconhecida da prática científica. Se a ciência permanece um empreendimento epistemicamente legítimo apesar dessas situações, então é difícil justificar a alegação de que a subdeterminação constitui uma objeção decisiva exclusivamente contra a metafísica da ciência. A subdeterminação não é, portanto, uma peculiaridade da metafísica, mas uma característica geral de nossas práticas epistêmicas. Essa observação permite responder a uma preocupação levantada por Raoni Arroyo e Jonas Arenhart em The Epistemic Value of Metaphysics. Nesse trabalho, eles argumentam que, enquanto não dispusermos de uma teoria científica final e de uma explicação satisfatória sobre como a ciência restringe a metafísica, é difícil transferir automaticamente as credenciais epistêmicas da primeira para a segunda. O presente trabalho aceita esse diagnóstico. Entretanto, proponho que a metafísica da ciência deva ser preferida em virtude de sua fecundidade. Seu valor não reside apenas em uma função heurística, mas também em sua capacidade de articular conceitualmente o conhecimento científico. As teorias metafísicas ajudam a identificar conexões entre diferentes domínios científicos, organizar compromissos ontológicos e explorar possibilidades interpretativas que a própria prática científica ainda não tornou explícitas. Essa defesa exige abandonar a expectativa de que existem teorias metafísicas verdadeiras. Nesse ponto, a inspiração pode ser encontrada em Empiricism, Semantics, and Ontology, de Rudolf Carnap. De uma perspectiva carnapiana, a escolha entre estruturas conceituais não depende de descobrir qual delas corresponde à estrutura última da realidade, mas de determinar qual delas é mais fecunda para nossos propósitos teóricos e práticos. Aplicada à metafísica da ciência, essa ideia permite compreender a subdeterminação não como um defeito, mas como uma pluralidade de ferramentas conceituais disponíveis. A questão relevante não é qual metafísica é verdadeira em sentido global, mas qual estrutura integra melhor o conhecimento científico, favorece a investigação e oferece maiores vantagens epistêmicas e pragmáticas para a prática científica, dados determinados objetivos.
Robert Lima – Paralelos entre o Idealismo Transcendental e a Interpretação de Bohr da Mecânica Quântica
Segundo a doutrina do idealismo transcendental fundada por Immanuel Kant, todo o nosso conhecimento acerca dos objetos, seja ele universal e necessário, seja ele particular e acidental, tem como fundamento e conteúdo as nossas formas de representá-los ou nossas próprias representações. É idealismo, pois afirma a idealidade de toda a realidade empírica – i.e., a realidade empírica é inteiramente dada por representações – e transcendental, pois estipula que determinadas representações participam da experiência como formas puras a priori. Assim entendida, uma tal doutrina cumpre um papel, a princípio, negativo: ela limita nosso escopo conceitual, quando tratando de objetos, aos nossos aparatos sensíveis e suas modificações, proibindo, de certo modo, o salto do fenômeno para o objeto independente: seja qual for a natureza – se é que assim possa ser dito – daquilo que não temos acesso senão por nossa sensibilidade, não podemos apreendê-la com os aparatos que possuímos, os quais, justamente, só são aplicáveis aos fenômenos. Nas palavras de Kant: “o que poderiam ser os objetos em si mesmos, apartados de toda essa receptividade de nossa sensibilidade, permanece inteiramente desconhecido para nós.” A chamada interpretação de Copenhague é um conjunto mais ou menos coerente de diversas contribuições teóricas acerca da mecânica quântica feitas na primeira metade do século passado. Um de seus principais proponentes foi o físico Niels Bohr. Uma das principais contribuições de Bohr é o chamado princípio da complementariedade. Tal princípio estipula a necessidade da admissão de explicações que, mesmo mutuamente excludentes, são necessárias para dar conta de arranjos experimentais distintos. Isto é, se dois ou mais arranjos exigem modelos que tomados de maneira conjunta se excluem, é necessário admiti-los como complementares no sentido de que a cada um é reservado seu devido escopo. Nesse sentido, a mecânica quântica não poderia fornecer um modelo unificado para explicação de diversos fenômenos, mas antes diversas imagens complementares umas as outras. Essa complementariedade não é admitida exatamente como uma pluralidade ontológica, mas antes mais como o estabelecimento de um meio de lidar com a limitação da nossa capacidade de acesso aos fenômenos quânticos. Assim entendidas, ambas as perspectivas – da filosofia transcendental kantiana e da interpretação de Copenhague à lá Bohr – se tratam de expedientes teóricos que em alguma medida estabelecem limitações explícitas à nossa capacidade de acesso aos níveis mais fundamentais da realidade física. Nosso objetivo, portanto, é o de apresentar os possíveis paralelos teóricos entre ambas as perspectivas, com especial ênfase no princípio de complementariedade. Nosso trabalho é fundamentalmente baseado nas pesquisas da professora Patrícia Kauark Leite.
Emily Ovalhe (UFBA) – Realismo estrutural e mecânica quântica
O objetivo desta comunicação é apresentar o realismo estrutural ôntico de James Ladyman, em oposição ao realismo estrutural epistêmico, e os argumentos em seu favor fundamentados na mecânica quântica, bem como discutir as críticas apresentadas pelo professor Matteo Morganti a essa posição. O realismo científico sustenta que o sucesso da ciência é justificado pela aproximação das teorias científicas bem-sucedidas à verdade. Apesar de parecer intuitivo, um problema relevante a ser respondido por realistas é como essa aproximação pode ser entendida à luz das diversas mudanças teóricas presentes na história da ciência. Teorias científicas que foram bem-sucedidas em uma época foram posteriormente substituídas por teorias diferentes, e consideradas falsas. Nesse contexto, o realismo estrutural foi proposto por John Worrall como tentativa de manutenção do realismo científico sem incorrer no problema das mudanças teóricas. Segundo tal posição, são as relações estruturais, que são mantidas ao longo das mudanças teóricas, e não os objetos, o que há de fundamental em nossas teorias científicas. Entretanto, Worrall não deixa claro em que sentido as relações estruturais são fundamentais. Posteriormente, em What is structural realism?, James Ladyman distingue entre realismo estrutural epistêmico (REE), segundo o qual as relações estruturais são epistemicamente fundamentais; e realismo estrutural ôntico (REO), segundo o qual as relações estruturais são metafisicamente fundamentais. Ladyman defende esta última, apoiando-se, para tal, na mecânica quântica. Em Mecânica quântica e realismo estrutural ôntico, Matteo Morganti distingue entre três versões de REO: a versão forte, segundo a qual apenas as relações estruturais são fundamentais; moderada, segundo a qual objetos também são fundamentais, mas são apenas marcadores de posição e não possuem nenhuma característica intrínseca; e contextual, segundo a qual existem algumas propriedades de objetos que não são redutíveis a estruturas, mas os fatos de identidade sempre são. Além disso, Morganti reconstrói dois dos principais argumentos em favor do REO: o argumento da subdeterminação, segundo o qual o realismo estrutural ôntico deve ser adotado por evitar uma subdeterminação metafísica na interpretação ontológica da teoria quântica; e o argumento da primazia das relações, segundo o qual alguns aspectos da teoria quântica, como o emaranhamento de sistemas quânticos compostos, indicam que as estruturas são ontologicamente fundamentais. Morganti apresenta objeções a ambos os argumentos, trazendo luz a problemas das três versões de realismo estrutural ôntico distinguidas anteriormente. A análise dessas objeções permite avaliar em que medida a mecânica quântica efetivamente fornece suporte à tese de que estruturas relacionais são metafisicamente fundamentais.
Denilson Xavier – Décio Krause sobre Identidade, individualidade e não-individualidade em física quântica
O objetivo dessa apresentação é demonstrar que, para compreender as entidades quânticas, é necessário adotar uma matemática adequada com suas características, bem como apresentar a teoria de quase-conjuntos como uma alternativa adequada ao comportamento das entidades quânticas. Esse tipo de entidade representa um desafio aos
conceitos de identidade estabelecidos pelas teorias da matemática clássica. Tais teorias aceitam que um objeto é idêntico somente a si mesmo. Em teorias de conjunto clássicas, assume-se que um indivíduo é uma entidade que pode ser re-identificada. Além disso, princípios como o da Identidade dos Indiscerníveis proposto por Leibniz, afirmam que não existem entidades completamente indiscerníveis, pois cada entidade possui uma identidade própria que a distingue das demais. No entanto, as entidades quânticas não se comportam como os objetos macroscópicos. Elas não podem ser observadas individualmente da mesma maneira que objetos do cotidiano. As suas características são dadas pelas teorias físicas. Objetos como elétrons possuem todos as mesmas propriedades observáveis. Assim, não dispomos de critérios físicos para distinguir um elétron de outro. Além disso, estatísticas que tratam de entidades quânticas, como a Estatística de Bose-Einstein, indicam que partículas, como os bósons são indistinguíveis, o que impossibilita determinar a individualidade das partículas. Uma vez que essas entidades saiam da observação em experimentos, não é possível re-identificá-las em um outro momento. Por esses motivos, afirma-se que as entidades quânticas não são indivíduos no sentido clássico. Logo, a matemática clássica não é adequada para tratar esse novo tipo de objeto revelado pelas teorias da física. Para lidar com essas entidades é necessário desenvolver teorias que aceitem as características metafísica dessas entidades. Nesse contexto, a teoria de quase-conjuntos, desenvolvida por Décio Krause e Steven French, apresenta-se como uma maneira de formalizar coleções de entidades indistinguíveis. Como base dessa teoria é utilizada a teoria de conjuntos de Zermelo-Fraenkel com átomos (ZFA). Sua principal novidade é introduzir, além dos átomos usuais de ZFA, denominados “M-entidades”, um novo tipo de entidade as “m-entidades” que representam as entidades quânticas. Para essas últimas as teorias da matemática clássica não são aplicáveis. Relações como a de identidade não pode ser utilizada para as “m-entidades”. Em seu lugar, usa-se uma relação de indiscernibilidade: se dois objetos “x” e “y” são “m-entidades”, então pode-se dizer que são indiscerníveis, mas não são necessariamente idênticos. Desse modo, na teoria há uma distinção entre identidade e indistinguibilidade. Na teoria de quase-conjuntos, podem existir duas entidades que compartilham todas as suas propriedades, mas que não são a mesma entidade. Dessa maneira, a teoria permite representar formalmente a hipótese de que entidades quânticas são completamente indiscerníveis sem serem idênticas.
Paola Villa – Dois vocabulários, um diagnóstico: subdeterminação metafísica, fenomenologia e naturalismo
O debate sobre naturalização metodológica da metafísica encontrou seu principal limite no fenômeno de subdeterminação metafísica: dada uma teoria física madura, seu formalismo, suas previsões e sua confirmação empírica, múltiplos perfis metafísicos mutuamente incompatíveis permanecem compatíveis com essa teoria, e nenhum acréscimo de evidência empírica parece suficiente para determinar qual entre eles seria verdadeiro. Documentado com particular clareza no contexto da Mecânica Quântica, no qual a subdeterminação opera no nível da interpretação da teoria, no nível ontológico e no nível metafísico, esse resultado coloca em questão uma pressuposição compartilhada pelas versões do naturalismo metodológico que fazem da relação com a ciência um critério constitutivo da investigação metafísica: a de que a ciência pode fixar ou constranger de modo determinante o perfil metafísico das entidades que a teoria descreve. O presente trabalho examina uma hipótese de convergência independente entre a subdeterminação metafísica e a condição de doação identificada pela fenomenologia husserliana, segundo a qual toda descrição objetiva pressupõe um modo pelo qual o objeto é constituído para uma consciência, modo esse que não pode ser incluído na própria descrição sem regressão. Em ambos os casos, por rotas metodológicas e pressupostos filosóficos distintos, a descrição objetiva máxima de um domínio teórico deixa indeterminada uma dimensão que é condição de possibilidade dessa mesma descrição. Partindo da articulação entre fenomenologia husserliana e Mecânica Quântica, conforme desenvolvida recentemente por Steven French em A Phenomenological Approach to Quantum Mechanics, este trabalho procura estender a análise para o debate sobre naturalização da metafísica. Para tanto, percorrem-se três movimentos: reconstrução da subdeterminação metafísica em seus níveis operativos no contexto quântico; reconstrução da análise husserliana da objetividade e da condição de doação; e exame da convergência diagnóstica dos dois resultados independentes, argumentando que esse paralelismo, embora obtido por tradições sem pressuposto metodológico comum, constitui razão abdutiva para reconhecer um limite interno ao programa naturalista: a descrição objetiva pressupõe condições de constituição que a investigação metodologicamente orientada pela ciência não está estruturalmente equipada para tematizar.
Lincoln Ramos – TBA
Vicente Meneguzzo – A Dissolução do ego e o problema da medição: paralelos entre a experiência psicodélica e a mecânica quântica
Este projeto propõe uma analogia conceitual entre o Problema da Medição da mecânica quântica, particularmente sob a perspectiva da Interpretação de Copenhague, e a neurociência da consciência. Não se trata de afirmar a existência de processos quânticos operando no cérebro, mas de investigar se a estrutura epistemológica da medição quântica pode oferecer um modelo filosófico útil para compreender a forma como a consciência organiza a experiência. Na mecânica quântica, um sistema isolado é descrito por uma função de onda capaz de representar uma superposição de estados possíveis. A interação desse sistema com um aparato de medição ou com o ambiente produz a decoerência, tornando o sistema observacionalmente compatível com um comportamento clássico. Embora a natureza desse processo permaneça objeto de debate, a medição quântica é frequentemente compreendida como marcando a transição entre um domínio de possibilidades e um domínio de fatos observáveis. Por analogia, sugere-se que a consciência possa operar por meio de um mecanismo equivalente a uma “decoerência cognitiva”. O fluxo informacional bruto e não filtrado representaria um estado de superposição fenomenológica, entendido não em sentido físico estrito, mas como uma multiplicidade de potenciais experienciais ainda não organizados pela estrutura do Eu. Nesse contexto, a Rede de Modo Padrão (Default Mode Network – DMN), compreendida como um conjunto integrado de regiões cerebrais envolvidas na manutenção do senso de identidade e na organização da experiência consciente, atuaria como um filtro preditivo responsável por restringir e organizar esse campo de possibilidades, promovendo a emergência de uma realidade subjetiva estável. Ao impor essa estruturação, a DMN contribuiria para a formação do estado de vigília habitual, caracterizado pela continuidade narrativa do self e pela distinção entre sujeito e objeto. Esse estado corresponderia ao que Karl Jaspers descreve como a consciência dos limites do Eu. O Ego seria compreendido, portanto, como uma interface perceptiva funcionalmente análoga ao resultado clássico da medição: uma estrutura que organiza e estabiliza a experiência consciente. Durante estados de dissolução do ego induzidos por substâncias psicodélicas, observa-se aumento da entropia cerebral informacional e redução da integridade funcional da DMN. Embora entropia cerebral e superposição quântica pertençam a domínios teóricos distintos, propõe-se que a diminuição transitória dos mecanismos de filtragem cognitiva possa enfraquecer as fronteiras habituais do Eu, favorecendo experiências nas quais a distinção entre sujeito e objeto se torna menos definida. Sob essa perspectiva, a dissolução do ego pode ser compreendida como uma flexibilização temporária dos mecanismos responsáveis pela estabilização da realidade subjetiva, oferecendo um campo fértil para refletir sobre as relações entre consciência, identidade e observação a partir de uma analogia inspirada pelo Problema da Medição.
